Resumo 7#-Tratado de Filosofia-Tomo I (Lógica e Cosmologia)-Regis Jolivet-COSMOLOGIA (Parte 4-Final)

COSMOLOGIA

A.Filosofia da natureza

Estuda o primeiro e o segundo grau de abstração,o mundo corporal e o  mundo vivo,correspondem respectivamente a cosmologia e psicologia.

B.Cosmologia

É a parte da filosofia da natureza que trata dos corpos enquanto tais,abstração feita de seres vivos ou não vivos.

A cosmologia parte da observação das propriedades mais gerais dos corpos visando definir sua essência,manifestada por suas propriedades.

As propriedades gerais dos corpos se resumem na quantidade e nas qualidades sensíveis.

Assim se dá a divisão da cosmologia:

I-Da quantidade

II-Das qualidades sensíveis

III-Da natureza dos corpos

 

A QUANTIDADE

A quantidade pode ser considerada pelo aspecto da quantidade contínua e da quantidade descontinua .

A QUANTIDADE DESCONTÍNUA

  1. Noções de unidade e de número

É importante distinguir desde já a unidade numérica, que está ligada à quantidade, e a unidade transcendental, que é estranha à ordem da quantidade.

  1. A   unidade   numérica.   —   A quantidade descontínua é a que se conta, ou mede e exprime-se por um número. Esta tem por princípio a unidade numérica. Assim, “10 ovos” é uma quantidade medida pela unidade-ovo, “10 metros” uma quantidade medida pela unidade metro.

A   unidade  transcendental –  A   unidade   transcendental (de que teremos de falar em Metafísica geral) designa simplesmente a propriedade que possuir o ser de ser indiviso em si mesmo.

Esta propriedade não acrescenta realmente nada ao ser. Significa apenas uma negação, a saber, a negação da divisão; tudo o que e ser é indiviso. Donde o axioma: o ser e o uno são convertíveis. Esta unidade transcendental é princípio da multiplicidade, quer dizer, da coleção de seres indivisos em si mesmos, e distintos uns dos outros, e considerados como distintos: um homem, um cavalo,, uma pedra, um vegetal formam uma multiplicidade ou pluralidade de seres.

  1. A gênese do número.

70        O número se encontra sob formas diversas:

  1.  Na quantidade contínua (número contínuo) : o que é divisível em partes da mesma natureza. As partes do contínuo são tais que o fim de uma será ao mesmo tempo o começo da seguinte. Daí resulta a propriedade da extensão.
  2. Na quantidade descontínua (número descontínuo ou propriamente dito) : o que é feito de unidades da mesma natureza ou de partes atualmente separadas umas das outras ou em simples contigüidade: três cadeiras, cem homens, as peças de uma máquina, os eixos formando um monte.

Distinguem-se o número numerado e o número numerante. O número numerado designa as coisas múltiplas que se somam por um número: três cadeiras, dez homens; o número numerante é o número abstrato, ou tomando absolutamente: 2, 3, 5 etc.

A  QUANTIDADE  CONTÍNUA

  1. A extensão dos corpos.

71         1. Realidade da extensão. — A realidade da extensão foi negada por certos filósofos, em particular os idealistas, que sustentam que a extensão não tem existência real, mas é apenas uma idéia no> espírito (opinião de BERKELEY ou uma simples maneira de sentir (opinião de KANT),

Estas opiniões interessam sobretudo à Crítica do conhecimento. Nós apenas notaremos aqui que elas vão diretamente  contra o juízo espontâneo,  natural e necessário do senso comum, que professa a realidade objetiva da extensão: se um tal juízo fosse falso, toda certeza seria destruída de roldão.

  1. As pretensas antinomias do contínuo. — Outras objeções contra a realidade da extensão (ou do contínuo) foram propostas, em nome de uma análise do contínuo. Estes são os argumentos famosos de Zenão de Eléia.
  2. a) Zenão de Eléia entende que, se a extensão fosse real, tornaria impossível o movimento. A extensão sendo, com efeito, composta de partes em número infinito— pelo fato de que o contínuo é indefinidamente divisível — seria impossível transpor qualquer espaço, uma vez que cada elemento deste espaço seria por sua vez. composto de elementos em número infinito. Como não se pode atravessar o infinito, seria impossível o movimento. Zenão ilustra esta. doutrina pelo exemplo de Aquilese da tartaruga: Aquiles, o de. pés ligeiros, por mais que corra, jamais poderá alcançar a tartaruga. De fato, o movimento é uma ilusão, se a extensão existe; e, se o movimento existe, é a extensão que é a ilusão.
  3. a) Discussão. Contra esta doutrina, existe inicialmente o fato. evidente da realidade do movimento. Além disso, o erro de Zenão é supor que as partes da extensão são descontínuas. Na verdade, elas não são divididas realmente, mas simplesmente divisíveis, © compõem um contínuo que um movimento, igualmente contínuo, pode transpor.

72        3.    Efeitos formais da extensão. — Da   extensão   dos   corpo» resultam o lugar e o espaço.

  1. a)     O lugar. O lugar é a superfície interior de um continente em relação a um conteúdo, mas considerada como imutável e jamais, havendo mudado. Em suma, o lugar é uma determinação fixa 8 invariável do espaço.
  2. b)     O espaço. Pode-se distinguir o espaço do senso comum, o espaço do matemático e o espaço filosófico. Para o senso comum, o espaço aparece como um grande receptáculo de três dimensões, em que podemos, pela imaginação, entender indefinidamente os limites. Este receptáculo contém todo os corpos.

Para o matemático, o espaço é uma grandeza contínua homogênea, onde só existem pontos sem dimensão, superfícies sem espessura etc.

Para o filósofo, o espaço real é o lugar universal dos corpos, a relação das dimensões do universo com tudo o que elas envolvem. Esta definição precisa a concepção imaginativa do senso comum e corrige a convenção matemática. Implica, com efeito, na afirmação de que não existe espaço real sem corpo real: o espaço é, pois, inseparável dos corpos, mas não se confunde com eles. Para encontrar o espaço real, é necessário considerar o universo nas suas dimensões, e estas na sua relação com o que contêm. O espaço é, assim,  uma relação  de dimensões.

 

  1. O  movimento.
  2. 1. Noção. — Para o senso comum, o movimento consiste na passagem de um lugar para outro. Isto é verdade, mas não define o movimento senão exteriormente, e só se aplica ao movimento local.
  3. a) Elementos da definição. Para definir filosòficamente o movimento, é necessário utilizar as noções de ato e de potência, que pertencem à Metafísica geral. Aqui, será suficiente saber que A potência é a aptidão de um ser a tornar-se ou a receber alguma coisa (Pedro está em potência para receber a ciência, a água fria está em potência para tornar-se vapor), enquanto que o ato é o fato, puni um ser, de ter recebido ou de se haver tornado esta coisa que podia receber ou tornar-se (Pedro, tendo adquirido ciência, é sábio em ato. água, aquecida, a 100 graus, está quente em ato).
  4. b) Definição. Considerado na sua essência, o movimento se define, então, com o ato daquilo que está em potência, enquanto estando em potência, Para compreender esta definição comecemos pela transformação. Pedro vai iniciar o estudo do latim. Ele o podo aprender, em virtude de sua qualidade de ser inteligente e, mais proximamente, em virtude de seus primeiros estudos de gramática, está, claro, com potência para saber latim. Desde que o saiba, será latinista em ato. Terá, então, passado da potência ao ato.   É esta passagem que constitui o movimento: é um ato     (ou uma sucessão de atos), uma vez que consiste na aquisição progressiva dos elementos do latim; mas é o ato de um ser em potência, uma vez que Pedro não é ainda latinista perfeito. Quando o for, o movimento cessará. O movimento é, portanto, o ato de uma potência enquanto tal, quer dizer, um ato começado, que prossegue, que não chegou ainda a seu termo derradeiro.
  5. Divisão. — A noção do movimento se aplica, não somente ao movimento local, mas, por analogia, a toda transformação, e não somente à ordem material, mas também à ordem espiritual (raciocinar, meditar, são movimentos).
  6. O tempo.

74        1. Noção. — O tempo se define como o número ou a medida do movimento. Com efeito, não se pode conceber o tempo sem O movimento, e isto resulta do fato de que distinguimos os progressos (ou fases) do movimento enquanto se sucedem uns aos outros. O tempo é, pois, uma espécie de número. Mas não é um número descontínuo: é um número continuo e fluente.

Cumpre distinguir o tempo, da duração. Esta não faz senão significar a permanência no ser, haja ou não sucessão. O tempo supõe a sucessão. Quem suprime a sucessão suprime o tempo.

  1. Os diferentes tempos. — Distinguem-se:
  2. a)     O tempo concreto ou vivido. É aquele que resulta do -movimento vivido por cada ser. O tempo pode ser mais ou menos vivido, conforme a rapidez ou a lentidão do movimento vivido por este ser. Durante o sono, o tempo quase desaparece, em conseqüência do relaxamento da atividade psíquica (ou movimento psíquico). De outras vezes, desde que a atividade é intensa, o tempo parece, ao contrário, precipitar-se.
  3. b)     O tempo abstrato. É o tempo uniforme, e vazio que nos representamos como uma linha, ao longo da qual se situam os acontecimentos do universo.
  4. c)     O tempo objetivo. É o tempo resultante do movimento da Terra nobre si mesma, eque foi tomado como unidade,  (um dia de vinte e quatro horas).   Este tempo uniforme  não depende de nós, se bem que, sem um espírito que numere (ou meça) o movimento da Terra, o tempo não existiria em ato, mas apenas em potência no movimento da Terra.

75        3.    Os elementos do tempo.

  1. a)     Presente, passado, futuro. O tempo se compõe, essência mente, de três partes: o passado, o presente, o futuro. Só o presente  existe: o passado já não é e o futuro ainda não é. Isto prova, ainda, que o tempo, tomado na sua totalidade, não existe realmente a não ser no espírito, que, graças à memória, conserva o passado e, pela previsão, antecipa o porvir.
  2. b)     A duração concreta. A duração concreta, contudo, quer dizer, o próprio ser, enquanto permanência do ser na sucessão, realiza de alguma forma a presença simultânea do passado e do futuro no presente. O presente do ser, que dura, é, com efeito, o passado acumulado, e ao mesmo tempo o futuro potencial, sob a forma das virtualidades de que está carregado.
  3. c)     O presente. O presente é como um ponto-limite e perpetuamente movente entre o passado e o futuro. Considerado abstratamente, não comporta nenhuma multiplicidade interna, nenhuma sucessão de atos. Mas pode-se falar também de um presente concreto, psicológico, que comporta uma certa sensação de multiplicidade interna: é o tempo exigido para que a consciência apreenda como um todo sintético e único uma sucessão de movimentos. É assim que uma frase (sucessão de palavras) é dada num presente concreto. Na realidade, como se vê, este presente concreto, síntese de sucessões, encerra os três elementos do tempo.
  4. O tempo e a eternidade.
  5. a)     O tempo corresponde ao que muda, ao que comporta a sucessão e o vir-a-ser. — A eternidade é uma duração, quer dizer, uma permanência de ser, sem nenhuma sucessão e, daí, sem começo nem fim. Pode-se dizer, em outras palavras, que é um eterno presente, uma posse perfeita e total do ser.
  6. b)     O tempo poderia não ter começo nem fim. Deus, com efeito, teria podido criar um tal tempo.   O tempo, assim concebido, não mudaria de natureza e não se confundiria de forma alguma com a eternidade, uma vez que não deixaria de ser sucessão e vir-a-ser, enquanto que a eternidade, sendo posse perfeita do ser, exclui necessariamente toda sucessão e todo vir-a-ser.

AS QUALIDADES SENSÍVEIS

  1. Noção.

75bis    1.   Natureza da qualidade. —   A qualidade é uma maneira de ser que afeta as coisas em si mesmas. Seu domínio é muito mais amplo que o da quantidade, uma vez   que   a   qualidade se aplica ao espírito tanto quanto ao corpo, ao contrário da quantidade, que não tem realidade a não ser no domínio corporal.

  1. A objetividade das qualidades sensíveis. — Não   se   trata aqui de negar a realidade empírica (ou aparente)   das qualidades sensíveis, que se impõe por si mesma. Mas certos filósofos se perguntaram se as  qualidades  sensíveis têm,  objetivamente falando, toda a realidade que lhes atribuímos espontaneamente, quer dizer, se, por exemplo, a cor, o calor, o peso etc. existem, como tais, fora de nós.  Devemos aqui apenas assinalar este problema e remetê-los para sua discussão à Psicologia, onde o encontraremos, no estudo da sensação.
  2. Divisão das qualidades.
  3. Divisão acidental. — Desde  Locke,   distinguem-se as qualidades primárias e as qualidades secundárias, correspondendo respectivamente ao que os  escolásticos  chamavam sensíveis  comuns e sensíveis próprios.   As qualidades primárias são as que se referem à quantidade, a saber, a extensão, figura ou a forma, movimento e a resistência. — As qualidades secundárias são as que são objeto de um sentido próprio: cor e luz (vista), som (audição), sabor (paladar), odor (olfato), qualidades táteis e calor (tato) etc. Esta  divisão   é  feita  de  um ponto-de-vista  acidental.   Além disso, o movimento não é, propriamente, uma qualidade, mas recai, por redução, na categoria do lugar. Da mesma forma, a extensão, recai na quantidade.
  4. Divisão essencial. — Colocando-se do ponto-de-vista da essência da qualidade, quer dizer, das diversas maneiras pelas quais um sujeito pode ser modificado, obtêm-se as quatro espécies de qualidades seguintes:
  5. a)     A disposição. Chamam-se assim as maneiras de ser que afetam a própria natureza de um ser, seja espiritual (o dom da música), seja corporal   (saúde).
  6. b)     A potência e a impotência. São estas qualidades que afetam o sujeito, enquanto suscetível de atividade (Pedro pode fazer sem fadiga uma longa marcha ou um trabalho de várias horas seguidas. Paulo é incapaz disto).
  7. c)     As paixões. Sob este nome (usa-se também o de qualidades passíveis), agrupam-se as qualidades que resultam de uma alteração (cor, som, sabor, calor, odor etc.) ; — e as que causam a alteração (propriedades químicas ou físicas; eletricidade,  por exemplo).
  8. d)     A figura e a forma. Designam-se assim as qualidades que determinam   (ou  particularizam)   a  quantidade de um sujeito.
  9. A medida das  qualidades.

A experiência nos mostra que as qualidades podem ter graus (a água é mais ou menos quente; uma fazenda é mais ou menos vermelha; um sabor é mais ou menos pronunciado etc.) Esta constatação nos leva a perguntar se não seria possível medir as qualidades, quer dizer, reduzi-las de alguma forma ao número (e por conseguinte à quantidade).

  1. A medida  indireta. — Os   processos  usados  nas  ciências para medir as qualidades  (ou fenômenos)  já nos  são  mais familiares.

Quando se consulta o termômetro, sabe-se que as variações do calor nele se denunciam pelo movimento da. coluna, de  mercúrio no tubo graduado. Vê-se perfeitamente que se trata apenas de uma medida indireta  do calor,   completamente  diferente da medida de uma quantidade, que se faz por comparação com uma outra quantidade: vinte graus de calor não são a soma de vinte vezes um grau de calor. – Para  realizar estas medidas indiretas, as ciências recorrem,

Ora à medida da massa, ora à medida dos efeitos quantitativos (termômetro, barómetro, galvanômetro etc), — ora à medi da das relações e das proporções, que consiste em comparar entro si medidas de massas ou de efeitos quantitativos.

  1. A medida analógica. — Era todos estes casos, a medida duma qualidades não é evidentemente mais do que uma medida por analogia. A qualidade, como tal, não é suscetível de medida; em outras palavras, não é redutível a um número. Daí se segue que a diversidade  qualitativa, como tal, escapa à ciência, que apenas  nos pode dar uma representação simbólica do real.

 

A  MATÉRIA  E   A   FORMA   OU   A  ESSÊNCIA DOS  CORPOS

  1.       A questão da essência dos corpos não é um problema importante para as ciências físico-químicas. Ultrapassa, com efeito, a competência do puro físico, enquanto se trata de descobrir, não precisamente os elementos dos corpos (moléculas, átomos, íons, elétrons, nêutrons, prótons etc), que compõe o objeto das ciências, mas os princípios intrínsecos de sua constituição. Em outros termos, o físico não vai jamais, ou não pode ir, enquanto físico, além dos corpos, porque mesmo os elementos dos corpos, por menores que sejam, são ainda corpos. A Cosmologia, ao contrário, partindo unicamente da experiência, e utilizando-se dos resultados das ciências físico-químicas,

decide ir além do corpo e determinar os princípios de que resultam, não enquanto são tais ou tais corpos, mas enquanto são, puni e simplesmente, corpos.

 

A TEORIA HILEMÓRFICA

77        O nome de teoria hilemórfica (de duas palavras gregas que significam matéria e forma) foi dado à doutrina, proposta inicialmente por ARISTÓTELES, que define a essência dos corpos como resultante da união de dois princípios chamados matéria e forma.

  1. Matéria e forma.
  2. a) Noção. Os corpos comporiam a matéria, que é uniu matéria determinadas a matéria do corpo humano difere da de uma pedra ou da do ar. Mas de onde vem a diferença que existe entre estas diversas matérias? Não vem da própria matéria como tal, pois vemos que esta é suscetível de todas as transformações, em virtude de uma espécie de inércia, ou plasticidade que lhe ê própria. A diferença deve então provir de um outro princípio que se chama a forma substancial e que, apropriando-se da matéria indeterminada (ou prima)faz com que seja tal matéria (matéria segunda: corpo humano, pedra, vegetal). O corpo, como tal, tem então dois princípios constitutivos intrínsecosa matéria primeira e a forma substancial (assim chamada porque, por sua união, com a matéria, constitui uma substância corporal determinada).
  3. b)     A matéria e a forma como potência e ato. Desta análise, vê-se, ao mesmo tempo, recorrendo-se às noções dadas acima (73) sobre o ato e a potência, que a matéria-prima é potência e pura potência, quer dizer, capaz de converter-se em qualquer corpo, graças a sua absoluta indeterminação original. Por sua vez, a forma substancial é ato, porquanto é por ela que a matéria se torna tal corpo. E por isto que se diz que a forma ê ato da matéria. Assim, a alma racional (forma substancial) é o ato que faz da matéria-prima um corpo humano.
  4. c)     A matéria e a forma como princípios de ser. É preciso bem compreender que a matéria-prima não existe e não pode existir como tal. Toda matéria real é matéria segunda, quer dizer, determinada por uma forma substancial. Do mesmo modo, a forma, .substancial (salvo o caso da alma humana, como se verá em Psicologianão existe e não subsiste sem matéria. Com efeito, matéria-prima e forma substancial não são seres, mas apenas princípios de ser.

78        2.    União da matéria e da forma.

  1. a)     A unidade resultante da união da matéria e da forma é uma unidade essencial, quer dizer que forma uma única essência ou espécie.
  2. b)     A união da matéria e da forma se faz sem intermediário, uma vez que a forma substancial é o ato primeiro da matéria. Ou dois princípios do corpo se unem então por si mesmos, sob a ação de um agente físico, e formam por si mesmos um corpo único, uma única substância (o homem, composto de um corpo e de uma alma, é um ser único).
  3. Atividade e passividade no corpo.— Os corpos aparecem ao mesmo tempo como ativos e passivos. Estão sujeitos ao que a ciência chama inércia, quer dizer, a uma impotência para modificar por si mesmos seu estado, e ao mesmo tempo manifestam, sob a provocação de agentes físicos, atividades determinadas: o fogo queima, o corpo do animal se move, a árvore cresce e dá frutos. Estes dois aspectos contrários das realidades corporais se explicam pelo duplo princípio que os constitui: a matéria é, assim, princípio de passividade e de inércia, enquanto que a forma é princípio de atividade.

 

79         4.    A noção de espécie.

  1. a)     Definição. Todo corpo pertence a uma espécie determinada, quer dizer, a uma categoria de seres com a mesma natureza (espécie mármore, espécie carvalho, espécie lobo, espécie humana). É a forma substancial que é, no corpo, o princípio específico, quer dizer, o princípio que, unindo-se à matéria, produz um ser de uma iluda espécie.
  2. b)     A forma é o fundamento da diferença específica. É então a forma substancial que servirá para definir o que se chama a diferença específica, quer dizer, o caráter essencial, que situa um ser numa dada espécie. Assim, a diferença específica do homem (animal racional) será o caráter de racional, que define a forma substancial do homem ou alma racional.
  3. c) As formas substanciais e, por conseguinte, as diferenças específicas da maior parte dos seres permanecem desconhecidas na sua essência. Daí se definirem estes seres por suas propriedades ou, mesmo simplesmente, em certos casos, por seus caracteres exteriores: é assim que se definirá a espécie carvalho descrevendo a forma das folhas e do fruto deste vegetal.
  4. A forma acidental. — Todo ser corporal pode receber formas acidentaisque não mudam sua natureza, mas apenas sua maneira de ser. Assim, o mármore (matéria segunda) pode tornar-se estátua ou coluna, ou bacia, estátua de Júpiter ou estátua do Mercúrio. A água pode tornar-se vapor ou gelo. As formas acidentais são atos segundos em relação ao corpo, que está em potência destes atos diversos.

 

O PRINCÍPIO DA  INDIVIDUAÇÃO

  1. O problema da individuação. — Apresentou-se a questão de saber se a individuação (o fato de ser um indivíduo, quer dizer, um ser uno em si mesmo e distinto dos outros) provém da matéria ou da forma substancial. Esta questão se apresenta com o fim de explicar como uma espécie (por exemplo, a espécie humana) pode comportar indivíduos múltiplos (João, Tiago, Paulo etc), quer dizer, comportar seres ao mesmo tempo idênticos (uma vez que têm todos a mesma natureza) e distintos (uma vez que um não, é o outro).
  2. A individuação pela matéria. — Responde-se comumente que é a matéria que é o princípio da individuação. Com efeito, a forma, por si mesma, é universal (assim, a razão, que faz o homem, nadatem por si de individual; uma razão que não seja mais do que razão formaria por si só uma espécie). Ao contrário, recebendo a forma, a matéria, por estar dotada de quantidade, quer dizer de dimensões e, por conseguinte, de finitude, limita e restringe a forma, determina-a, e, portanto, a individualiza.

    

A   VIDA

 

A  VIDA EM GERAL

81         1.    Noção.

  1. a)     O movimento imanente. A vida é uma realidade muito simples para que a possamos definir. Pode-se, apenas, descrevê-la em sua manifestação pelo movimento espontâneo e imanente, quer dizer, por um movimento que o ser vivo produz por si mesmo, por seus próprios recursos e que tem seu termo imediato no próprio ser vivo — movimento aqui, não apenas no sentido de movimento local, mas de toda passagem da potência ao ato e mesmo de toda operação (73). Assim, o ser vivo se move, enquanto que o não-vivente é movido.
  2. b)     Natureza do movimento imanente. Quando se diz que o ser vivo se move por si mesmo, não se quer dizer que ele seja o principio absolutamente primeiro do movimento. Na realidade, mesmo o movimento que parte dele está condicionado, no seu exercício, por um conjunto de causas de que depende a todo momento. Por exemplo, a árvore cresce e frutifica (movimento imanente, sinal de vida) mas o ato de crescer e de frutificar depende da natureza do terreno e das energias solares. Daí dizer-se universalmente que tudo o que se move é movido por um outro ser, isto é, dependede um outro ser no exercício de sua atividade. Se, então, se afirma que o ser vivo se move a si mesmo, é no sentido de que O movimento não lhe é comunicado mecanicamente de fora (como é o caso do movimento da pedra), mas resulta, sob a ação das causas que o tornam possível, do próprio princípio vital, quer dizer, dedentro mesmo do ser vivo.
  3. A alma, princípio do movimento.
  4. a)     Todo corpo vivo é vivo pela presença de uma alma, distinta da matéria corporal. O corpo, enquanto matéria, não é capaz de se mover. Como se viu mais acima, o seu movimento provém da forma substancial, que, nos seres vivos, recebe o nome de
  5. b)     É, pois, forçoso, rejeitar a teoria fisico-química ou materialista, segundo a qual a vida se explicaria adequadamente por combinações de forças físico-químicas e seria, por conseguinte, redutível a uma propriedade da matéria.

A matéria é passiva; o ser vivo é ativo. A matéria se expande do exterior, por adição de elementos homogêneos; o ser vivo se expande do – interior, por intussuscepção e assimilação, e segundo um plano em que se exprime uma lei imanente. Da mesma forma, o ser vivo se reproduz, o que não pode fazer a matéria.

82        3.    Os  graus da vida.

  1. a)     Distinguem-se três graus de vida: a vida vegetativa (plantas) — a vida sensitiva (animais), — a vida racional (homens), que têm por princípios, respectivamente, as almas vegetativa, sensitiva, racional.

O homem, natureza intelectual, não possui três almas, se bem que possua as potências vegetativa, sensitiva e racional, assim como o animal não tem duas almas, vegetativa e sensitiva. A alma superior assume as funções dos graus inferiores: a alma do animal é, ao mesmo tempo, vegetativa e sensitiva; a alma humana é, ao mesmo tempo, vegetativa, sensitiva e racional.

  1. b)     As funções vegetativas e sensitivas não ultrapassam o nível do corpo, e a alma, que é o seu princípio, se acha unida indissoluvelmente à matéria. Por isto, não sobrevive à dissolução do composto. Isto não se aplica à alma humana, em que as operações superiores se processam sem o concurso intrínseco (mas com o concurso apenas extrínseco, quer dizer, a título de condição dos órgãos corporais. A alma humana é, pois, na sua existência, independente do corpo e subsiste a dissolução do organismo corporal.

O PROBLEMA   DA   EVOLUÇÃO

  • 1.   A hipótese Evolucionista

82        1. A tese evolucionista. — O estudo cada vez mais extenso e preciso das espécies que compõem a fauna e a flora do globo terrestre, a descoberta de numerosos fósseis que pertencem às espécies atuais, mas que possuem caracteres somáticos menos acentuados do que os que se encontram hoje, a descoberta de espécies inteiramente extintas, mas que parecem ligar-se às espécies sobreviventes, assim como outros fatos, deram, ainda no século XIX, uma grande voga ao que se chama a teoria transformista ou evolucionista, segundo a qual todas as espécies atuais, vegetais e animais, do globo, proviriam, por via de evolução, de um pequeno número de troncos primitivos ou mesmo de um único primitivo.

  1. As diferentes formas do evolucionismo.
  2. a)     LamaRck. Foi Lamarck, professordo Museu de História Natural de Paris, o primeiro que formulou com clareza a hipótese evolucionista, nela especificando que os fatores (ou causas) da evolução seriam, a seu ver, os três seguintes: o meio, a hereditariedade, o tempo. As variações do meio (clima, alimentação, temperatura) provocam transformações diversas nos corpos vivos. E assim também as necessidades, determinadas pelo estado do meio, e que criam pouco a pouco os órgãos suscetíveis a satisfazê-las (donde o princípio lamarckiano: “a função cria o órgão”)- Essas transformações se transmitem por hereditariedade e se fixam na espécie.
  3. b)     Darwin. Darwin retoma as idéias de Lamarck, substituindo pela concorrência vital ou luta pela vida a explicação que Lamarck atribuía à ação do meio. Todo ser vivo, diz Darwin, esta em luta contra o meio e contra as espécies concorrentes. Esta luta produz uma seleção natural, no sentido de que os indivíduos mais fracos sucumbem e que só sobrevivem os mais fortes e mais aptos. Ela é, por isto mesmo, uma fonte de diferenciações entre os indivíduos. As diferenças favoráveis e úteis se avolumam com o uso e se transmitem por hereditariedade.
  4. c) DE VRIES.  O naturalista DE VRIES sustentou que  a evolução não se completa, como o pensaram Lamarck e DARWIN, por pequenas variações contínuas, mas por mutações bruscas e de grande amplitude, desencadeadas pelo jogo de influências fortuitas.
  • 2.   Estado atual da questão

84       Dois problemas estão em jogo: o do fato da evolução e o do mecanismo da evolução.

  1. O fato da evolução. — Os sábios parecem estar de acordo em reconhecer a realidade de uma evolução, ao menos nos limites dos gêneros e das espécies. Haveria, então, na origem das espécies e dos gêneros atuais, um pequeno número de troncos que, por diferenciações sucessivas, teriam pouco a pouco dado nascimento à multiplicidade atual. Parece que provas suficientes corroboram esta opinião. Quanto a estender mais longe o domínio da evolução, quer dizer, ligar os troncos, que estão na origem das espécies atuais, a tipos mais gerais, e, estes, a um único tipo inicial, é, ao menos, no momento, ultrapassar o que permitem afirmar os fatos conhecidos e realmente estabelecidos.
  2. O mecanismo da evolução. — Se existe evolução, como se produz ela.
  3. a)     As teorias de Lamarck e de DARwin estão hoje quase abandonadas, como explicações gerais da evolução. Com efeito, as transformações não se puderam produzir por graus insensíveis, como o pensavam Lamarck e Darwin, pois do contrário de nada teriam valido. — O meio não tem a influência imaginada por Lamarck. — A função não cria o órgão, mas, ao contrário, o supõe. — A seleção se processa geralmente ao acaso. — A hereditarieda-de não parece transmitir os caracteres individuais adquiridos, mas simples disposições. Além disso, estas teorias não levam em conta os fatos das mutações, que são exatos.
  4. b)     O mutacionismo parece melhor adaptado aos fatos conhecidos. Mas está longe de responder a todos os problemas que o fato da evolução levanta. Em particular, a extensão das mutações, por importante que seja, é pouca ainda para poder avaliar a formação de grupos superiores às espécies e aos gêneros (quer dizer, de famílias ou ordens). De outra parte, grandes mutações, como as que produziram gêneros novos, equivaleriam a verdadeiras criações e não mais permitiriam falar de evolucionismo.
  5. c) Em qualquer hipótese, é impossível restringir-se a uma. explicação puramente mecânica da evolução, como o tentaram LA-MARCK e Darwin. Jamais se explicará a vida e suas transformações pelo simples jogo de fatores externos, físicos ou químicos. Estes não são para os seres vivos mais do que ocasiões de manifestar as virtualidades ou potências inscritas na sua natureza. Em conseqüência, toda teoria da evolução deverá ser ao mesmo tempo me-canista e finalista, experimental e metafísica. O primeiro princípio da evolução é, inicialmente, a idéia (ou forma), que é o ser vivo, com todas as potências de transformação que se incluem nesta idéia ou forma. Os fatores externos, mecânicos e químicos, intervém de maneira mais ou menos eficaz como condições determinantes da potência evolutiva.

Resta descobrir quais puderam ser o modo de ação e a amplitude destes fatores externos. Este é o domínio da ciência. Até aqui, as certezas adquiridas são muito limitadas e o processo da evolução permanece ainda muito misterioso.

85       3.   As origens humanas.

  1. a)     O problema. As observações que fizemos valem com mais, forte razão para a espécie humana. Resultará ela, por evolução, de espécies animais anteriores? Nada permite afirmá-lo de maneira absolutamente certa.
  2. b)     Limites da teoria evolutiva. Admitindo, contudo, a possibilidade, e, mesmo, até um certo ponto, a probabilidade de uma tal evolução (de vez que numerosos fósseis parecem sugerir, quando não antepassados da espécie humana [homo sapiens], ao menos tipos aparentados, mais ou menos próximos destes hipotéticos ancestrais), a evolução jamais poderá constituir uma explicação adequada da espécie humana,, porque entre o animal e o homem há um abismo intransponível, uma radical separação. A evolução, se verdadeiramente se verificou, então deve ter-se limitado à preparação do corpo humano, que não se tornou efetivamente um corpo humano a não ser pela criação por Deus da alma espiritual Se bem que seja necessário falar, mesmo neste caso, de uma criação-imediata por Deus do corpo e da alma do primeiro homem.

Vê-se assim que, segundo esta hipótese, o homem existiria realmente sem antepassados, se pelo menos fôr tomada esta palavra no sentido próprio. Não será, portanto, lícito empregá-la (como o fizemos acima), a não ser no sentido limitado e impróprio, que resulta do que acabamos de dizer.

Fonte:

http://www.consciencia.org/cursofilosofiajolivet10.shtml

 

 

 

 

 

 

 

 

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